sábado, 20 de março de 2021

Mortes na fila por um leito de UTI, falta de insumos e funerárias sem férias: os sinais do colapso na saúde brasileira

Segundo a Fiocruz, o país passa pela sua maior crise sanitária e hospitalar da história.
Por Fábio Manzano e Camila Rodrigues da Silva, G1
O Brasil dá sinais de um colapso em seu sistema de saúde. Mais que isso: segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o país passa pela maior crise sanitária e hospitalar da história.

Pacientes morrem na fila à espera de um leito de UTI, hospitais alertam para a falta de insumos e até mesmo as funerárias falam em cancelar as férias de funcionários.

"O Brasil já colapsou", afirma em entrevista ao G1 Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Leitos de UTI

Em São Paulo, estado que tem a maior estrutura hospitalar do país, antes do fim de março, morreram pelo menos 135 pessoas à espera de uma vaga na UTI.

Entre as vítimas, há um menino de três anos e uma jovem de 25, no interior do estado. Mas as cidades com maior registro de mortes na fila da UTI estão na Grande São Paulo.
Profissional de saúde trata paciente com Covid em UTI do Hospital São Paulo, em São Paulo, no dia 17 de março — Foto: Amanda Perobelli/Reuters/Arquivo

No Paraná, o número foi ainda maior: foram 500 mortos aguardando a disponibilidade de leitos de UTI e enfermaria, segundo o governo do estado. Até sexta-feira (19), 1.196 paranaenses aguardavam por uma vaga.

"Nós vamos ter diferentes situações no Brasil", diz Vecina. "Alguns vão conseguir controlar, outros não. Sem isolamento, a única saída seria aumentar o número de leitos, mas é muito difícil acertar a demanda."

Professor da Universidade de Duke (EUA), o neurocientista Miguel Nicolelis disse em entrevista ao jornal "O Globo" que, antes de se esgotar, uma taxa de ocupação de 90% dos leitos de UTI já é preocupante.

"Só na logística para achar o leito e transferir, as pessoas vão morrer. O Brasil inteiro colapsou", disse Nicolelis.

O G1 consultou secretarias da Saúde, centrais de regulação, hospitais, prefeituras e até a Defensoria Pública para analisar a situação dos leitos da UTI. Em ao menos 16 estados, já houve mortes de pacientes com Covid-19 ou com suspeita da doença na fila por uma vaga.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, segundo a Central de Regulação, 156 óbitos foram registrados neste ano.